"If you think
that your belief is based upon reason, you will support it by argument, rather
than by persecution, and will abandon it if the argument goes against you. But
if your belief is based on faith, you will realize that argument is useless,
and will therefore resort to force." Bertrand Russell
19.Abril Divisões da Biologia A pergunta parece simples: “Quais são as sub-divisões da Biologia?” A
resposta, como estou a descobrir,
não é fácil.
8.AbrilEmpresas
Dizem-nos que o futuro agora está no auto-emprego, que os jovens têm que criar
as suas micro-empresas. Que o tempo do emprego seguro e da estabilidade já
passou, em nome da competitividade e da produtividade. Tempos modernos, aos
quais temos que nos adaptar.
Dizem-nos que a fuga ao fisco é um problema sério, e que o governo está a
trabalhar para apanhar os mauzões que não pagam, e que temos que compreender
todos que se não pagarmos os nossos impostos o país não vai para a frente.
depois lemos textos como este (5.Abril.2005,
O Estado ladrão) ou este (O
Miguel desistiu), e apetece dizer a essa gente, muito micaelensemente:
"Vão lá-lá!"
Comentários:
7.AbrilPlágio
Continuo a ter alunos que, nos seus trabalhos escritos, transcrevem
alegremente parágrafos inteiros da internet, umas vezes citando a fonte e
outras nem isso. Valia a pena abordar esse assunto formalmente logo no
primeiro ano. Assim como, já agora, as normas de elaboração dos relatórios, as
regras de citação, a formatação da bibliografia, essas coisas. Era de fazer um
Manual de Estilo, de adopção transversal a todas as disciplinas. Mas falar é
fácil...
O tema do plágio em trabalhos universitários é bem abordado num
artigo de
Earl Babbie, traduzido
aqui
por Gonçalo Velho.
2.AbrilUm outro tipo de fraude
Acontece-me isto com frequência:
uma mensagem de uma lista de distribuição de correio, ou um artigo de jornal,
ou algo que uma amiga me atira para a caixa do correio (como agora) chama-me a
atenção, e largo o que estou a fazer para ir aprofundar o assunto. Estar na internet é como estar solto numa biblioteca- a tentação é demasiado grande. O
artigo em causa é de
Peter
Medawar, e tem o título provocador de "Is the scientific paper a fraud?".
Conheço o nome, mas resisto a ler mais coisas sobre a pessoa.
Deixo aqui o artigo e a ligação,
e volto para os relatórios de Ictiologia.
30.MarçoHonestidade e Correcção
Pode ser-se honesto e estar-se enganado? Pode mentir-se e acertar? Na resposta
à polémica causada pelo seu artigo sobre fraude na ciência (de que
já falei), Richard Lewontin chama a
atenção para a confusão que muitas vezes se estabelece entre honestidade e
correcção. Um investigador pode mentir sobre as experiências que efectuou e
mesmo assim estar correcto nas afirmações que faz. E, inversamente, pode ser
rigorosamente honesto e estar errado. E conclui: a ciência é um domínio no
qual a integridade do processo é mais importante do que o valor de um
resultado específico. Até pela própria sobrevivência da ciência enquanto forma
de descobrir o mundo.
29.Março Ai o tempo! Isto não está fácil para a escrita, desde que o semestre começou. E então
desde a aprovação do projecto da
Biomanipulação, até as corridinhas nas
Laranjeiras passaram à história, substituídas pelas olheiras e pela má
disposição. Mas neste bocadinho entre deitar os miúdos e uma noitada de
preparação de aulas e de correcção de testes e relatórios ficam umas notas do
que se passou de interessante no meu canto da cognitosfera. Livros: Li recentemente de
John Gray "Straw
Dogs. Thoughts on Humans and Other Animals", de Ernst Mayr "What
makes Biology Unique? Considerations on the Autonomy of a Scientific
Discipline" e de
Clara Pinto Correia
"Trinta Anos
de Democracia. E Depois, Pronto". Cheguei ao livro de Gray através das
reflexões suscitadas por uma estimulante discussão bloguística de que
já falei. É uma obra aterradora, porque o autor usa
uma cultura impressionante, que vai da biologia à história e à política
contemporânea, e uma capacidade filosófica invulgar, para chegar ao ponto
pessimista em que eu me sinto muitas vezes. Mas depois de ler o livro deixei
de me poder desculpar com a minha ignorância. Já o Mayr
consolou-me: claro que já sabia que a Biologia estava um degrau acima das
ciências ditas exactas. Basta ver o interesse recente de físicos e matemáticos
por motivos biológicos, e o beco sem saída em que os primeiros se enfiaram na
sua sanha de partir partículas aos bocadinhos. Mas, tal como com Gray, consola
encostar-nos no ombro de quem sabe e dizer "Eu também acho!". E finalmente
adorei ler o livro da Clara. Um desabafo sobre o que está de mal no nosso
país, muito lúcido mas com amargura q.b. Viagens: Cabo
Verde (mais propriamente a ilha do Sal) encantou-me. Gostei: das pessoas, do
mar, da comida, das dunas, de estar num sítio onde ainda desovam tartarugas.
Não gostei: dos chatos dos senegaleses, do turismo de massas, das moto-quatro
sobre as dunas e de pensar que já não falta muito para deixar de haver desovas
de tartarugas. Fico particularmente triste por ver repetir num sítio tão lindo
aquilo que já vi acontecer no Algarve e que sei ter acontecido no sul de
Espanha: a destruição do património paisagístico, natural e humano a troco de
uma ilusão de progresso. Já sei o que vai dar: daqui a 20 anos os hotéis
estarão fechados ou a saldar e os cabo-verdianos estarão mais pobres do que
agora. Pobres talvez não de dinheiro, mas do resto todo.
11.MarçoAlberto Amaral
A Reitoria promoveu uma série de reuniões a propósito da problemática de
Bolonha. Está de parabéns, pela parte que me toca. A Prof. Estela Pereira pôs
muita gente a fazer as contas do ECTS, e eu pude ouvir o Prof. Pedro Lourtie
falar na primeira pessoa sobre a génese e evolução do Processo de Bolonha.
Fiquei a saber, por exemplo, que o caos no sistema de ensino superior francês
foi um dos motores dos princípios da padronização e da mobilidade. Tive pena
de não ouvir o Prof. João Vasconcelos
Costa. E lá fui, ontem, ouvir o Prof. Alberto Amaral.
Nem com muito optimismo eu podia dizer que a sala estava meio cheia. Estava
mesmo muito para lá de meio vazia. Um colega tinha-me dito anteriormente: "Não
vou- já estou farto de ouvir falar de Bolonha!..." Compreendo. Confesso que se
não fosse eu achar que não está certo andarmos a brincar aos académicos também
não tinha ido.
Sabia pelo Professorices que
o Prof. Alberto Amaral tinha escrito um artigo polémico sobre a possibilidade
de Portugal ficar relegado para segundo plano a nível do Ensino Superior
Europeu. Mas não sabia mais nada, a não ser que o título da palestra era
"Bolonha e a Economia".
Fiquei de queixo caído. O Homem começou a palestra em 1729, citando Adam Smith
e David Ricardo para situar o problema da Europa no mundo
globalizado do
neo-liberalismo: como conjugar as regalias sociais com os efeitos da ditadura
do mercado livre? Belisquei-me: estarei mesmo a ouvir isto de um académico,
ex-reitor, com formação de engenharia e sotaque do norte? E a propósito de
Bolonha? Mas era mesmo. E durante uma hora, o Prof. Alberto Amaral lá foi
desfiando a sua visão pessimista de uma Europa presa na inevitabilidade do
decréscimo dos seus padrões de vida por via da mobilidade do capital e da deslocalização das manufacturas. De como a "empregabilidade" é um termo que
transfere para a esfera pessoal aquilo que é uma responsabilidade do estado,
garantida pela Constituição. E de como a história política anterior do
actual presidente da Comissão Europeia, e as suas acções até ao presente,
tornam claro que a União Europeia vai ser dominada pelas visões economicistas,
no sentido mais pejorativo da palavra.
A generalidade dos espectadores estava como eu- completamente apanhada de
surpresa. Ainda perguntei se ele achava então que há pouco que as
universidades possam fazer neste contexto, uma vez que as decisões que
importam são tomadas a um nível muito superior. Ao que ele respondeu, no seu
estilo lacónico, que "sim". Gerou-se algum debate, que eu não pude
seguir porque tive que sair. Mas
fui para casa com uma sensação boa de que afinal posso não ser uma ave tão
rara como pensava que era... Podem consultar-se uma série de
artigos do Prof. Alberto Amaral na
Página da
Educação (sobretudo
este, sobre as
duas formas de ligação da Univ. à sociedade), e ler uma série de entrevistas sobre o estado actual do Ensino
Superior em Portugal no
Educare.
Um texto contendo o essencial da palestra pode ser lido no
site do JVC
e fica guardado aqui.
9.MarçoMisticismos 1
Passando uma vista de olhos sobre o site do Osho surpreendeu-me ver o destaque
dado aos horóscopos e ao Tarot. Só depois é que reparei: ".com"? "Osho Active
Meditations™"? Isto em nome de um homem que se despojou do próprio nome? Hummm...
ou ele era uma fraude ou está a revolver-se na campa.
Onde é que fico? Continuo a gostar de algumas das ideias que li. Mas, pensando
bem, houve outras meio estranhas. Então o grau máximo da liberdade é a não
acção? Concordo que se não quisermos nada somos completamente livres- até de
nós próprios. Mas é essa liberdade desejável? E onde é que isso nos deixa em
relação aos outros, à nossa responsabilidade de impedir injustiças, por
exemplo? O mundo ideal é um mundo de zombies? Misticismos 2 Uns alunos meus emprestaram-me o livro "Le serpent cosmique",
de Jeremy Narby. Ainda não o li todo, e provavelmente não vou conseguir ler.
Mas li algumas entrevistas (deoxi.org,
@rchipress) e uma
crítica.
Aqui temos um antropólogo que propõe uma hipótese da qual ele próprio tem
medo, tanto que enche páginas e páginas de referências bibliográficas para
procurar estabelecer as suas credenciais científicas. E a hipótese é (tanto
quanto consegui compreender) a de que os povos "primitivos" obtêm
conhecimentos acerca das propriedades medicinais das plantas através de visões
causadas por alucinogénicos que permitem uma observação directa do mundo
molecular. De facto, torna-se difícil admitir que o vasto conhecimento
etnobotânico desses povos tenha sido adquirido por tentativa e erro. E Narby
desenterra toda uma panóplia de representação de serpentes enroladas em
iconografia pré-histórica para suportar a sua afirmação de que os shaman
vêm mesmo a molécula de ADN quando estão nos seus transes hipnóticos.
Vou ler mais, antes de pôr o carimbo. Mas para já ainda não me convenceu...
6.MarçoOsho
Isto de ficar retido nos aeroportos não tem só desvantagens. Comprei en
passant um livro de OSHO (1931-1990),
porque o título me atraiu: "LIBERDADE- a coragem de ser genuíno". Comprei
sem grandes ilusões, no mesmo espírito em que comprei "O Alquimista", do
Paulo
Coelho. Mas enquanto este foi uma desilusão, li de uma ponta à outra o livro de Osho, duas vezes, sublinhando-o e
anotando-o furiosamente da segunda.
Tem ideias do tipo que eu gosto: chocantes à partida, mas fundamentadas de
modo a deixar-nos a pensar. Quatro exemplos:
"O colectivo é uma ideia muito perigosa. Em nome do colectivo, o
individual, aquilo que é real, tem sido sempre sacrificado. Eu sou
absolutamente contra isto. (...) A ideia do colectivo tem de ser completamente
destruída; de outra forma, de uma maneira ou de outra, vamos continuar a
sacrificar o indivíduo."
"No momento em que o amor se torna uma relação, transforma-se numa
prisão, porque há expectativas e exigências e frustrações, assim como um
esforço dos dois lados para dominarem. (...) Transformar o amor em contrato
significa que você está a por a lei acima do amor."
"O Homem ainda não chegou ao ponto em que os governos possam ser
dissolvidos. Os anarquistas como Kropotkin são contra o governo, são
contra a lei. Ele queria dissolvê-los. (...) Eu sou um anarquista de uma
dimensão muito diferente. Primeiro é preciso que as pessoas estejam prontas,
depois os governos desaparecerão por si mesmos."
"É preciso coragem e é preciso o amor imenso de um pai ou de uma mãe para
dizer aos filhos:
- Vocês têm de se libertar de nós. Não nos obedeçam- dependam da vossa própria
inteligência. Mesmo se seguirem maus caminhos, é muito melhor do que serem
escravos e estarem sempre certos. É melhor cometerem erros à vossa conta e
aprenderem com eles, do que seguirem outras pessoas e não cometerem erros.
Porque então vocês nunca vão aprender mais nada a não ser seguir os outros- e
isso é veneno, puro veneno."
Vi neste livro perspectivas de resposta a perguntas fundamentais que se me
colocam. Vou definitivamente ler mais coisas deste autor.
4.MarçoPara acabar de vez com a Biologia "científica"
Aqui fica o resumo da comunicação que apresentei ao II Congresso da Ordem dos
Biólogos:
Na sua generalidade, as licenciaturas em Biologia estão
centradas na aquisição de conhecimentos teóricos e vocacionadas para a
formação de investigadores. A principal preocupação dos professores é a
investigação, e a responsabilidade pela aprendizagem é colocada no aluno.
Esta situação traduz-se na formação de profissionais com baixa
empregabilidade. Mudanças de fundo na preparação inicial dos biólogos têm
sido dificultadas pelo contexto legislativo, quer no enquadramento do
ensino superior e do seu financiamento quer no estatuto da carreira
docente. Mas também tem sido aparente a dificuldade das universidades em
liderar qualquer processo de reforma.
O presente processo de Bolonha fornece uma oportunidade
única para mudar radicalmente o panorama do ensino superior da Biologia,
com reflexos importantes no papel do biólogo na sociedade. A Ordem deve
por isso ter um papel interventor e regulador, complementando e adaptando
as directivas governamentais na matéria. Concretamente, sugiro que a Ordem
deve (i) advogar a criação de um primeiro ciclo de banda larga, e sugerir
para ele descritores de conteúdos e de competências; (ii) fixar
descritores de competências para o segundo ciclo.
Foi assinado hoje o "Contrato Excepcionado
1/2005/DROTRH para aquisição de uma prestação de serviços destinada à
reabilitação da lagoa das Furnas através da redução de ciprinídeos", entre a
Secretaria Regional do Ambiente e do Mar e o Departamento de
Biologia/Universidade dos Açores. Adivinhem quem é o investigador
responsável... Enquanto não houver um alojamento definitivo, a página web do
projecto fica aqui.
20. Fevereiro Eleições
A cada eleição tenho mais dúvidas e problemas de
consciência em participar nesta que é a mais baixa forma de democracia: ir
votar de 4 em 4 anos para escolher uma máquina partidária que manterá tudo na
mesma. Mas esta
citação de Emma
Goldman fez-me rir: "If voting changed anything,
they'd make it illegal."
19.FevereiroDocência e investigação
Li com atenção e agrado o artigo do
Prof.
Arsélio Pato de Carvalho, "Repensar
a Universidade hoje". Gostei de vê-lo chamar a atenção para o facto de que
Bolonha é muito mais que a questão dos ciclos, e gostei da sua ideia de que
vai haver uma pressão selectiva para a reforma das universidades.
Mas, infelizmente, o Prof. Arsélio parece-me preso numa confusão que é
transversal à generalidade dos comentários sobre o ensino superior que tenho
lido nos últimos tempos: a dos lugares da investigação e da docência. O Prof.
Arsélio mistura no seu artigo docentes e investigadores como se fossem a mesma
coisa, e apresenta os grupos de investigação nas universidades como a fonte da
revolução necessária nos métodos de ensino:
"Os núcleos de investigação da universidade são actualmente os mais
versáteis e qualificados para monitorizar novos modelos de ensino que podem ir
desde os primeiros anos da licenciatura até à pós-graduação. Estes núcleos têm
já em seu poder as novas tecnologias que têm transformado o processo de
aprendizagem dos alunos desde os primeiros anos escolares, e os investigadores
destes núcleos estão bem preparados para lançar nas faculdades centros de
novas aprendizagens para os alunos de licenciatura, como o têm feito para a
pós-graduação."
Atrevo-me a discordar! Não me parece que os investigadores, sobretudo aqueles
que fazem parte de núcleos de excelência que o Prof. Arsélio menciona, estejam
particularmente qualificados para as novas realidades do ensino. Relembro
apenas o ênfase na empregabilidade preconizado por Bolonha, e a necessidade de
desenvolver competências profissionais e sociais que extravasam o âmbito
necessariamente estreito de uma área de investigação de ponta.
A nova formação universitária, para ter alguma relevância numa revolução
cultural que este país tanto precisa, tem que ser abrangente,
multidisciplinar, integrada na sociedade e dirigida por uma visão do futuro
que tenha em conta valores humanos e de sustentabilidade ecológica. Uma parte
dos alunos terá vocação e enquadramento em actividades de investigação. Para
esses, os centros de investigação serão excelentes instrumentos de formação. E
os outros?
O Prof. Arsélio reconhece que "As actividades universitárias com qualidade
reconhecida internacionalmente realizam-se sobretudo nos núcleos de
investigação". É pena que não se possa dizer o mesmo da docência, e
pretender que as duas coisas são equivalentes é perpetuar um engano que tem
custado caro a gerações de portugueses e que é um dos principais entraves a um
ensino superior eficiente e justo.
15. Fevereiro Irmã Lúcia
Hoje estão bandeiras a meia haste por todo o
lado. Morreu a Irmã Lúcia, a última das
videntes de Fátima. Esperem lá: estão
a falar do fenómeno histérico de 1917, resultante da ignorância profunda de
uma população subjugada pelo peso da igreja
católica? A mesma igreja que, se não
planeou o fenómeno, foi
muito rápida a aproveitá-lo e a torná-lo numa imensa fonte de
rendimento? Estão a falar de uma senhora que passou mais de 80 anos fechada
num convento, isolada do mundo e embrutecendo-se com a repetição constante das mesmas rezas?
E a Universidade dos Açores, com as suas responsabilidades de centro de saber
e de enaltecimento das capacidades intelectuais humanas, põe a bandeira
a meia haste? Tudo bem, são opções. Mas não venham depois lamentar-se com o
descrédito da sociedade relativamente à universidade!
13. Fevereiro Ward Churchill
É interessante ler o que um índio americano,
professor de Estudos Étnicos na Universidade do Colorado,
tem a dizer
sobre o atentado de 11/9. Quantas vezes nos lembramos que os índios americanos
se sentem invadidos e roubados da sua soberania? Os meus poucos conhecimentos
de história da América do Norte incluem a ideia de que os índios venderam
territórios aos brancos. Sendo assim, houve uma época em que as nações índias
eram reconhecidas. Como é que de repente desapareceram? A
história,
contada por Ward, é triste. Mas serve para colocar os EUA no contexto
palestiniano, bósnio, ruandês, basco e (porque não?) nazi. E servir de
contraponto à respectiva retórica de paladinos da democracia e dos direitos
humanos...
Modelos
O lado mau de estar tão imerso nas questões da
pedagogia do ensino superior e das implicações do processo de Bolonha é
sentir-se completamente afogado de informação, insatisfeito com as actuais
práticas pedagógicas mas incapaz de estruturar uma alternativa aceitável para
as aulas que começam já amanhã! E ainda tenho que acabar o resumo da
comunicação ao
II Congresso Nacional da Ordem dos Biólogos... A
Edith Cowan University pareceu-me, numa
passagem breve, ser um modelo do que eu acho que deve ser uma universidade. Um
exemplo? Tem uma unidade de Resource Development que apoia os professores na
preparação e manutenção do material para as disciplinas. Vejam só: "Normally
staff will be supported by an instructional designer, materials developer and
desktop publisher." Quem trabalha num sítio assim não deve passar por estas
angústias...
11. FevereiroLEONARDO
Submeti ontem a candidatura da UA ao
programa Leonardo da
Vinci. Este é um
programa europeu vocacionado para a formação profissional a vários níveis
e ao longo da vida. Nesta fase de arranque vamos apostar nos recém-licenciados
nas áreas das ciências naturais, porque para os restantes existe já o projecto
desenvolvido pela
DRJEFP: a ideia é apostar na complementaridade, não na concorrência. Os 4
felizes contemplados irão fazer um estágio de 4 meses na região de
Freiburg, Alemanha, e
sairão de todo este processo (espera-se) com maiores perspectivas de emprego
mas sobretudo (sabe-se) com uma visão mais positiva de si próprios.
Não
acredito que haja algum biólogo que não conheça este nome. Quando comecei a
estudar Biologia o assunto que mais me interessava era a
evolução. Li imenso sobre
o assunto incluindo, claro, livros e artigos de Mayr. Lembro-me das nossas
batalhas com o conceito de
espécie. O conceito biológico de espécie, para o qual Mayr deu um
contributo essencial, era o conceito central, do qual os outros constituíam
modificações adaptadas a casos especiais. Mais tarde havia de me debater com
este conceito, quando tive que o aplicar no contexto de diferenças
morfológicas evidentes entre duas "populações"
alopátricas.
E voltei aos livros de Mayr para apoio (os "Principles of Systematic Zoology"
ainda estão em local proeminente da minha estante).
Mayr publicou sobre evolução, o que naturalmente o levou a pensar (e a
escrever) sobre a filosofia da
ciência e da
biologia.
Quando se começa a reflectir sobre o que somos e de onde é que viemos (nós e
os organismos que nos rodeiam e que connosco fazem parte do milagre da vida),
as questões do que se sabe e de como é que se sabe tornam-se essenciais.
Uma breve volta na net permite-me sugerir os textos sobre Mayr na
Wikipedia, na
PBS
e na Edge (onde
se pode ver um vídeo).
3. Fevereiro Asas
Nós nascemos para ter asas, meus
amigos.
Não se esqueçam de escrever por dentro
do peito: nós nascemos para ter asas.
No entanto, em épocas remotas, vieram
com dedos pesados de ferrugem para gastar as nossas asas como se gastam
tostões.
Cortaram-nos as asas para que fôssemos
apenas operários obedientes, estudantes atenciosos, leitores ingénuos de
notícias sensacionais, gente pouca, pouca e seca.
Apesar disso, sábios, estudiosos do
arco-íris e de coisas transparentes, afirmam que as asas dos homens
crescem mesmo depois de cortadas, e, novamente cortadas, de novo voltam
a ser.
Aceitemos esta hipótese, apesar de não
termos dela qualquer confirmação prática.
Professor diz-me porquê?
Por que voa o papagaio
que solto no ar
que vejo voar
tão alto no vento
que o meu pensamento
não pode alcançar?
Professor diz-me porquê?
Por que roda o meu pião?
Ele não tem nenhuma roda
E roda gira rodopia
e cai morto no chão...
Tenho nove anos professor
e há tanto mistério à minha roda
que eu queria desvendar!
Por que é que o céu é azul?
Por que é que marulha o mar?
Porquê?
Tanto porquê que eu queria saber!
E tu que não me queres responder!
Tu falas falas professor
daquilo que te interessa
e que a mim não interessa.
Tu obrigas-me a ouvir
quando eu quero falar.
Obrigas-me a dizer
quando eu quero escutar.
Se eu vou a descobrir
Fazes-me decorar.
É a luta professor
a luta em vez de amor.
Eu sou uma criança.
Tu és mais alto
mais forte
mais poderoso.
E a minha lança
quebra-se de encontro à tua muralha.
Mas
enquanto a tua voz zangada ralha
tu sabes professor
eu fecho-me por dentro
faço uma cara resignada
e finjo
finjo que não penso em nada.
Mas penso.
Penso em como era engraçada
aquela rã
que esta manhã ouvi coaxar.
Que graça que tinha
aquela andorinha
que ontem à tarde vi passar!...
E quando tu depois vens definir
o que são conjunções
e preposições...
quando me fazes repetir
que os corações
têm duas aurículas e dois ventrículos
e tantas
tanta mais definições...
o meu coração
o meu coração que não sei como é feito
nem quero saber
cresce
cresce dentro do peito
a querer saltar cá para fora
professor
a ver se tu assim compreenderias
e me farias
mais belos os dias.
Alice Gomes (1946)
24. JaneiroLimites para o relativismo
cultural
23. JaneiroBodião azul Demorou cinco anos, mas finalmente enviei
fotos do Centrolabrus caeruleus para o FishBase! Para os mais
distraídos, esta é uma espécie endémica dos Açores,
descrita
aqui pelo yours truly. Também fiz uma descrição da respectiva
biologia. Bons tempos!
Macho: Fêmea:
20. JaneiroAdivinha Qual é o sistema que permite que uma pessoa possa ser um formador de alto
nível sem ter a mínima preparação pedagógica? E que, ao mesmo tempo, obriga
essa pessoa a concorrer a projectos de investigação, pondo-lhe na mão verbas
avultadas e responsabilidades sobre pessoas (técnicos, bolseiros), sem exigir
(nem recomendar!) nenhuma formação em
gestão de projectos?
Uma pista: é o mesmo sistema que se pretende perpetuar apregoando a
necessidade de formação ao longo da vida...
11. Janeiro Estes tradutores online estão
a ficar bons. Usei o @promt da
SmartLink e, apesar das
brasileiradas e das correcções que tive que fazer, poupei bastante trabalho.
Uma amostra:
Nothing in Biology Makes Sense Except in the Light of Evolution
Nada em Biologia Tem Sentido Exceto na Luz de Evolução
Theodosius Dobzhansky (1900-1975)
9. Janeiro A propósito de uma discussão
sobre se a sida é ou não causada pelo VIH, e porque não me apetecia (nem
conseguia, em pouco tempo) entrar nos
detalhes técnicos da polémica (mas v.
aqui uma introdução, e
aqui os
pormenores), lembrei-me de um interessante artigo de
Chris Horner no nº 8 da revista
Think sobre uma corrente filosófica designada por “Pragmatismo”.
Se percebi bem, o argumento central é que não é possível conhecer a Realidade
tal como ela existe, independentemente dos condicionamentos humanos. De facto,
isso implicaria que houvesse uma maneira independente, não humana, de
confirmar aquilo que nós pensamos que é a Verdade. E não há, como é óbvio.
Os pragmáticos (pragmatistas?) defendem que o valor das ideias se mede, não
pela perfeição com que reflectem a Realidade, mas pela sua utilidade prática.
“Ideas are tools, not mirrors”, diz Horner. Faz sentido, apesar de se ficar
com um pé atrás ao saber que esta é uma (a única) contribuição norte-americana
para a filosofia…
Mas, nesta perspectiva, é forçoso reconhecer que o paradigma VIH-sida fica
muito mal classificado. Não tenho tempo para isso, mas valia a pena ir buscar
os números já investidos no estudo deste minúsculo pedaço de ARN, pô-los em
perspectiva com o investimento noutras áreas da investigação médica (a
malária, por exemplo), e contrastá-los com os resultados alcançados: nem uma
única pessoa "curada", nem uma única vacina viável.
Não é caso para pensar? Não se justificaria procurar explicações alternativas?
Não fosse dar-se o caso, por minúscula que fosse a probabilidade, por muito
que isso custasse ao
NIH, ao
Gallo, e aos milhares de cientistas que vivem à custa deste paradigma, de
haver mesmo outra explicação? O sofrimento mental e físico causado a
tantas centenas de milhares de pessoas não exigiria essa abertura de espírito?
Ah, mas neste caso há uma confirmação independente. Uma novidade no domínio da
Ciência (pelo menos desde o
julgamento de Galileu, em 1633): uma
Declaração de sábios, pois. Assinado por mais de 5.000 pessoas (!),
“including Nobel prizewinners”. E, pronto, conhecemos a Verdade e está o
assunto resolvido.
Não deixa de ser irónico invocar uma corrente filosófica norte-americana para
desafiar aquela que é das maiores pragas lançada mundialmente pelos EUA
(depois do “free-trade” e de Hollywood)…
"A justiça só existe na medida em que os
homens a desejam de comum acordo e a fazem. Não existe, pois, justiça no
estado de natureza, não existe justiça natural. Toda a justiça é humana, toda
a justiça é histórica: não existe justiça (no sentido jurídico do termo) sem
leis, nem (no sentido moral) sem cultura - não existe justiça sem sociedade."
E disse mais ou menos o seguinte:
Parece-me que se estão a discutir ao mesmo tempo
dois assuntos diferentes: o primeiro é uma coisa que para mim é óbvia- que não existe justiça "natural". O outro é a questão de saber se os
animais têm ou não sentido de justiça. (Até porque o Comte-Sponville diz que
não) Estas duas ideias são distintas mas estão ligadas. A ver se ajudo a
destrinçar.
As leis da biologia (se as há...) são
epifenómenos das leis da física e da química. Percebe-se, penso? A vida tem
bases químicas e físicas. É, na sua essência, uma propriedade emergente, em
meio líquido, de sistemas complexos baseados em carbono. Assim como não há
justiça no movimento planetário, ou no nascimento e morte de estrelas, também
não há justiça no mundo biológico. Pacífico, parece-me: a justiça é um
conceito (ou um sentimento?), não uma propriedade da matéria.
Para se poder compreender o que seja justiça é
preciso haver um mínimo de inteligência, como quer que ela seja definida. E de
memória. E de sentido do passado e do futuro. E é isto que nos leva à questão
seguinte: a justiça é uma invenção humana?
E aí, caro André (o francês), atrevo-me a
discordar: os cães têm sentido de justiça. E de responsabilidade. Assim como
os macacos têm inveja, e sentimento de posse. E uns são maus e outros bons.
Não há nenhuma diferença fundamental (a nível intelectual ou qualquer outro)
entre as pessoas e os animais. As diferenças são de grau, não de género.
Que a inteligência humana seja uma continuação
da inteligência animal e não algo radicalmente diferente já é mais difícil de
aceitar para alguns. Mas é fácil para mim, na sequência do que sei sobre a
evolução, e de leituras de
Daniel Dennett (Kinds
of Minds) e Peter Singer
(Practical Ethics). Dizia o
Dobzhansky que nada na Biologia faz sentido sem o conceito de evolução. E
eu acrescentaria, neste contexto, que muitas características humanas podem ser
muito melhor entendidas se pensarmos que não aterrámos neste planeta de
pára-quedas.
Portanto se sairmos do nosso pedestal e
começarmos a descer a escala evolutiva vamos encontrar sentimentos, emoções,
conceitos. Pensemos nos chimpanzés, dos quais nos separámos há
4-5 milhões de anos (ontem, em termos geológicos). Que diabo, eles
comunicam connosco! É à medida que descemos a escala, então, que as
funções mais elevadas intelectualmente se vão apagando, apagando, até
chegarmos ao nível mais básico do estímulo-resposta, onde tudo começou.
6. Janeiro Preparando as aulas para o
próximo semestre, e batalhando entre Problem-Based
Learning e
Metodologia de
Projecto descobri as chamadas
WebQuests. São actividades preparadas para ser executadas com base em
informação retirada da internet. Interessante. No lado da avaliação, estou a olhar para
coisas como as
Scoring Rubrics: vantajosas para os professores E para os alunos.
Chego à conclusão que existem uma série de abordagens, mais ou menos
formalizadas, que giram à volta da questão de envolver os alunos na construção
da sua própria aprendizagem. As páginas de Peter Ommudsen sobre
Critical Thinking in
Biology são um bom resumo destas abordagens- com casos práticos, ainda por
cima!
1.JaneiroUma
amiga minha chamou-me à atenção o
Decálogo Liberal, de
Bertrand Russel. São, segundo as palavras do próprio, os Dez
Mandamentos do professor, e nada melhor do que começar o ano reflectindo
neles.
Decálogo Liberal
Os Dez Mandamentos
que promulgaria, como professor, são os seguintes:
1. Não te sentirás
absolutamente certo de coisa alguma.
2. Não pensarás
ser vantajoso progredir ocultando as provas, pois elas virão, inapelavelmente,
à luz.
3. Não tentarás
desencorajar o raciocínio, pois seguramente conseguirás.
4. Quando
encontrares oposição, mesmo que seja a de marido ou filhos, esforçar-te-ás por
superá-la pela força dos argumentos e não pela da autoridade, pois uma vitória
que depende da autoridade é irreal e ilusória.
5. Não respeitarás
a autoridade de outros, pois encontrarás sempre outras que a contradigam.
6. Não usarás da
força para suprimir opiniões que julgas perniciosas, pois se o fizeres as
opiniões suprimir-te-ão.
7. Não temerás ser
excêntrico nas tuas opiniões, pois todas as opiniões hoje aceites já foram
excêntricas outrora.
8. Encontrarás
mais prazer na divergência inteligente do que na concordância passiva visto
que, se aprecias devidamente a inteligência,a primeira
implica uma concordância mais profunda do que a segunda.
9. Serás
escrupulosamente verdadeiro, mesmo que a verdade seja inconveniente,pois mais inconveniente será quando tentares ocultá-la.
10. Não sentirás
inveja da felicidade dos que vivem num paraíso de insensatos, pois
somente um insensato pensará que isso é felicidade.
"A Liberal
Decalogue", The Autobiography of Bertrand Russell, Vol. 3:
1944-1969, pp. 71-2. (v. texto original
aqui, nas páginas
da Bertrand Russell
Society)