José Manuel N. Azevedo

Weblog

2005 (Janeiro-Abril)

 

"If you think that your belief is based upon reason, you will support it by argument, rather than by persecution, and will abandon it if the argument goes against you. But if your belief is based on faith, you will realize that argument is useless, and will therefore resort to force." Bertrand Russell

 

Mais citações?

 

Coisas que me interessam:

Ensino Superior

Livros

19.Abril Divisões da Biologia
A pergunta parece simples: “Quais são as sub-divisões da Biologia?” A resposta, como estou a descobrir, não é fácil.

 

8.Abril Empresas
Dizem-nos que o futuro agora está no auto-emprego, que os jovens têm que criar as suas micro-empresas. Que o tempo do emprego seguro e da estabilidade já passou, em nome da competitividade e da produtividade. Tempos modernos, aos quais temos que nos adaptar.
Dizem-nos que a fuga ao fisco é um problema sério, e que o governo está a trabalhar para apanhar os mauzões que não pagam, e que temos que compreender todos que se não pagarmos os nossos impostos o país não vai para a frente.
 depois lemos textos como este (5.Abril.2005, O Estado ladrão) ou este (O Miguel desistiu), e apetece dizer a essa gente, muito micaelensemente: "Vão lá-lá!"
Comentários:

 

7.Abril Plágio
Continuo a ter alunos que, nos seus trabalhos escritos, transcrevem alegremente parágrafos inteiros da internet, umas vezes citando a fonte e outras nem isso. Valia a pena abordar esse assunto formalmente logo no primeiro ano. Assim como, já agora, as normas de elaboração dos relatórios, as regras de citação, a formatação da bibliografia, essas coisas. Era de fazer um Manual de Estilo, de adopção transversal a todas as disciplinas. Mas falar é fácil...
O tema do plágio em trabalhos universitários é bem abordado num artigo de Earl Babbie, traduzido aqui por Gonçalo Velho.

 

2.Abril Um outro tipo de fraude
Acontece-me isto com frequência: uma mensagem de uma lista de distribuição de correio, ou um artigo de jornal, ou algo que uma amiga me atira para a caixa do correio (como agora) chama-me a atenção, e largo o que estou a fazer para ir aprofundar o assunto. Estar na internet é como estar solto numa biblioteca- a tentação é demasiado grande. O artigo em causa é de Peter Medawar, e tem o título provocador de "Is the scientific paper a fraud?". Conheço o nome, mas resisto a ler mais coisas sobre a pessoa. Deixo aqui o artigo e a ligação, e volto para os relatórios de Ictiologia.

 

30.Março Honestidade e Correcção
Pode ser-se honesto e estar-se enganado? Pode mentir-se e acertar? Na resposta à polémica causada pelo seu artigo sobre fraude na ciência (de que já falei), Richard Lewontin chama a atenção para a confusão que muitas vezes se estabelece entre honestidade e correcção. Um investigador pode mentir sobre as experiências que efectuou e mesmo assim estar correcto nas afirmações que faz. E, inversamente, pode ser rigorosamente honesto e estar errado. E conclui: a ciência é um domínio no qual a integridade do processo é mais importante do que o valor de um resultado específico. Até pela própria sobrevivência da ciência enquanto forma de descobrir o mundo.

 

29.Março Ai o tempo!
Isto não está fácil para a escrita, desde que o semestre começou. E então desde a aprovação do projecto da Biomanipulação, até as corridinhas nas Laranjeiras passaram à história, substituídas pelas olheiras e pela má disposição. Mas neste bocadinho entre deitar os miúdos e uma noitada de preparação de aulas e de correcção de testes e relatórios ficam umas notas do que se passou de interessante no meu canto da cognitosfera.
Livros: Li recentemente de John Gray "Straw Dogs. Thoughts on Humans and Other Animals", de Ernst Mayr "What makes Biology Unique? Considerations on the Autonomy of a Scientific Discipline" e de Clara Pinto Correia "Trinta Anos de Democracia. E Depois, Pronto". Cheguei ao livro de Gray através das reflexões suscitadas por uma estimulante discussão bloguística de que já falei. É uma obra aterradora, porque o autor usa uma cultura impressionante, que vai da biologia à história e à política contemporânea, e uma capacidade filosófica invulgar, para chegar ao ponto pessimista em que eu me sinto muitas vezes. Mas depois de ler o livro deixei de me poder desculpar com a minha ignorância. Já o Mayr consolou-me: claro que já sabia que a Biologia estava um degrau acima das ciências ditas exactas. Basta ver o interesse recente de físicos e matemáticos por motivos biológicos, e o beco sem saída em que os primeiros se enfiaram na sua sanha de partir partículas aos bocadinhos. Mas, tal como com Gray, consola encostar-nos no ombro de quem sabe e dizer "Eu também acho!". E finalmente adorei ler o livro da Clara. Um desabafo sobre o que está de mal no nosso país, muito lúcido mas com amargura q.b.
Viagens: Cabo Verde (mais propriamente a ilha do Sal) encantou-me. Gostei: das pessoas, do mar, da comida, das dunas, de estar num sítio onde ainda desovam tartarugas. Não gostei: dos chatos dos senegaleses, do turismo de massas, das moto-quatro sobre as dunas e de pensar que já não falta muito para deixar de haver desovas de tartarugas. Fico particularmente triste por ver repetir num sítio tão lindo aquilo que já vi acontecer no Algarve e que sei ter acontecido no sul de Espanha: a destruição do património paisagístico, natural e humano a troco de uma ilusão de progresso. Já sei o que vai dar: daqui a 20 anos os hotéis estarão fechados ou a saldar e os cabo-verdianos estarão mais pobres do que agora. Pobres talvez não de dinheiro, mas do resto todo.

 

11.Março Alberto Amaral
A Reitoria promoveu uma série de reuniões a propósito da problemática de Bolonha. Está de parabéns, pela parte que me toca. A Prof. Estela Pereira pôs muita gente a fazer as contas do ECTS, e eu pude ouvir o Prof. Pedro Lourtie falar na primeira pessoa sobre a génese e evolução do Processo de Bolonha. Fiquei a saber, por exemplo, que o caos no sistema de ensino superior francês foi um dos motores dos princípios da padronização e da mobilidade. Tive pena de não ouvir o Prof. João Vasconcelos Costa. E lá fui, ontem, ouvir o Prof. Alberto Amaral.
Nem com muito optimismo eu podia dizer que a sala estava meio cheia. Estava mesmo muito para lá de meio vazia. Um colega tinha-me dito anteriormente: "Não vou- já estou farto de ouvir falar de Bolonha!..." Compreendo. Confesso que se não fosse eu achar que não está certo andarmos a brincar aos académicos também não tinha ido.
Sabia pelo Professorices que o Prof. Alberto Amaral tinha escrito um artigo polémico sobre a possibilidade de Portugal ficar relegado para segundo plano a nível do Ensino Superior Europeu. Mas não sabia mais nada, a não ser que o título da palestra era "Bolonha e a Economia".
Fiquei de queixo caído. O Homem começou a palestra em 1729, citando Adam Smith e David Ricardo para situar o problema da Europa no mundo globalizado do neo-liberalismo: como conjugar as regalias sociais com os efeitos da ditadura do mercado livre? Belisquei-me: estarei mesmo a ouvir isto de um académico, ex-reitor, com formação de engenharia e sotaque do norte? E a propósito de Bolonha? Mas era mesmo. E durante uma hora, o Prof. Alberto Amaral lá foi desfiando a sua visão pessimista de uma Europa presa na inevitabilidade do decréscimo dos seus padrões de vida por via da mobilidade do capital e da deslocalização das manufacturas. De como a "empregabilidade" é um termo que transfere para a esfera pessoal aquilo que é uma responsabilidade do estado, garantida pela Constituição. E de como a história política anterior do actual presidente da Comissão Europeia, e as suas acções até ao presente, tornam claro que a União Europeia vai ser dominada pelas visões economicistas, no sentido mais pejorativo da palavra.
A generalidade dos espectadores estava como eu- completamente apanhada de surpresa. Ainda perguntei se ele achava então que há pouco que as universidades possam fazer neste contexto, uma vez que as decisões que importam são tomadas a um nível muito superior. Ao que ele respondeu, no seu estilo lacónico, que "sim". Gerou-se algum debate, que eu não pude seguir porque tive que sair. Mas fui para casa com uma sensação boa de que afinal posso não ser uma ave tão rara como pensava que era...
Podem consultar-se uma série de artigos do Prof. Alberto Amaral na Página da Educação (sobretudo este, sobre as duas formas de ligação da Univ. à sociedade), e ler uma série de entrevistas sobre o estado actual do Ensino Superior em Portugal no Educare. Um texto contendo o essencial da palestra pode ser lido no site do JVC e fica guardado aqui.

 

9.Março Misticismos 1
Passando uma vista de olhos sobre o site do Osho surpreendeu-me ver o destaque dado aos horóscopos e ao Tarot. Só depois é que reparei: ".com"? "Osho Active Meditations™"? Isto em nome de um homem que se despojou do próprio nome? Hummm... ou ele era uma fraude ou está a revolver-se na campa.
Onde é que fico? Continuo a gostar de algumas das ideias que li. Mas, pensando bem, houve outras meio estranhas. Então o grau máximo da liberdade é a não acção? Concordo que se não quisermos nada somos completamente livres- até de nós próprios. Mas é essa liberdade desejável? E onde é que isso nos deixa em relação aos outros, à nossa responsabilidade de impedir injustiças, por exemplo? O mundo ideal é um mundo de zombies?
Misticismos 2
Uns alunos meus emprestaram-me o livro "Le serpent cosmique", de Jeremy Narby. Ainda não o li todo, e provavelmente não vou conseguir ler. Mas li algumas entrevistas (deoxi.org, @rchipress) e uma crítica. Aqui temos um antropólogo que propõe uma hipótese da qual ele próprio tem medo, tanto que enche páginas e páginas de referências bibliográficas para procurar estabelecer as suas credenciais científicas. E a hipótese é (tanto quanto consegui compreender) a de que os povos "primitivos" obtêm conhecimentos acerca das propriedades medicinais das plantas através de visões causadas por alucinogénicos que permitem uma observação directa do mundo molecular. De facto, torna-se difícil admitir que o vasto conhecimento etnobotânico desses povos tenha sido adquirido por tentativa e erro. E Narby desenterra toda uma panóplia de representação de serpentes enroladas em iconografia pré-histórica para suportar a sua afirmação de que os shaman vêm mesmo a molécula de ADN quando estão nos seus transes hipnóticos.
Vou ler mais, antes de pôr o carimbo. Mas para já ainda não me convenceu...

 

6.Março Osho
Isto de ficar retido nos aeroportos não tem só desvantagens. Comprei en passant um livro de OSHO (1931-1990), porque o título me atraiu: "LIBERDADE- a coragem de ser genuíno". Comprei sem grandes ilusões, no mesmo espírito em que comprei "O Alquimista", do Paulo Coelho. Mas enquanto este foi uma desilusão, li de uma ponta à outra o livro de Osho, duas vezes, sublinhando-o e anotando-o furiosamente da segunda.
Tem ideias do tipo que eu gosto: chocantes à partida, mas fundamentadas de modo a deixar-nos a pensar. Quatro exemplos:

"O colectivo é uma ideia muito perigosa. Em nome do colectivo, o individual, aquilo que é real, tem sido sempre sacrificado. Eu sou absolutamente contra isto. (...) A ideia do colectivo tem de ser completamente destruída; de outra forma, de uma maneira ou de outra, vamos continuar a sacrificar o indivíduo."

"No momento em que o amor se torna uma relação, transforma-se numa prisão, porque há expectativas e exigências e frustrações, assim como um esforço dos dois lados para dominarem. (...) Transformar o amor em contrato significa que você está a por a lei acima do amor."

"O Homem ainda não chegou ao ponto em que os governos possam ser dissolvidos. Os anarquistas como Kropotkin são contra o governo, são contra a lei. Ele queria dissolvê-los. (...) Eu sou um anarquista de uma dimensão muito diferente. Primeiro é preciso que as pessoas estejam prontas, depois os governos desaparecerão por si mesmos."

"É preciso coragem e é preciso o amor imenso de um pai ou de uma mãe para dizer aos filhos:
- Vocês têm de se libertar de nós. Não nos obedeçam- dependam da vossa própria inteligência. Mesmo se seguirem maus caminhos, é muito melhor do que serem escravos e estarem sempre certos. É melhor cometerem erros à vossa conta e aprenderem com eles, do que seguirem outras pessoas e não cometerem erros. Porque então vocês nunca vão aprender mais nada a não ser seguir os outros- e isso é veneno, puro veneno.
"

Vi neste livro perspectivas de resposta a perguntas fundamentais que se me colocam. Vou definitivamente ler mais coisas deste autor.

 

4.Março Para acabar de vez com a Biologia "científica"
Aqui fica o resumo da comunicação que apresentei ao II Congresso da Ordem dos Biólogos:

Na sua generalidade, as licenciaturas em Biologia estão centradas na aquisição de conhecimentos teóricos e vocacionadas para a formação de investigadores. A principal preocupação dos professores é a investigação, e a responsabilidade pela aprendizagem é colocada no aluno. Esta situação traduz-se na formação de profissionais com baixa empregabilidade. Mudanças de fundo na preparação inicial dos biólogos têm sido dificultadas pelo contexto legislativo, quer no enquadramento do ensino superior e do seu financiamento quer no estatuto da carreira docente. Mas também tem sido aparente a dificuldade das universidades em liderar qualquer processo de reforma.

O presente processo de Bolonha fornece uma oportunidade única para mudar radicalmente o panorama do ensino superior da Biologia, com reflexos importantes no papel do biólogo na sociedade. A Ordem deve por isso ter um papel interventor e regulador, complementando e adaptando as directivas governamentais na matéria. Concretamente, sugiro que a Ordem deve (i) advogar a criação de um primeiro ciclo de banda larga, e sugerir para ele descritores de conteúdos e de competências; (ii) fixar descritores de competências para o segundo ciclo.

O texto completo fica aqui.

 

1.Março Biomanipulação

Foi assinado hoje o "Contrato Excepcionado 1/2005/DROTRH para aquisição de uma prestação de serviços destinada à reabilitação da lagoa das Furnas através da redução de ciprinídeos", entre a Secretaria Regional do Ambiente e do Mar e o Departamento de Biologia/Universidade dos Açores. Adivinhem quem é o investigador responsável... Enquanto não houver um alojamento definitivo, a página web do projecto fica aqui.

 

20. Fevereiro Eleições

A cada eleição tenho mais dúvidas e problemas de consciência em participar nesta que é a mais baixa forma de democracia: ir votar de 4 em 4 anos para escolher uma máquina partidária que manterá tudo na mesma. Mas esta citação de Emma Goldman fez-me rir: "If voting changed anything, they'd make it illegal."

 

19.Fevereiro Docência e investigação

Li com atenção e agrado o artigo do Prof. Arsélio Pato de Carvalho, "Repensar a Universidade hoje". Gostei de vê-lo chamar a atenção para o facto de que Bolonha é muito mais que a questão dos ciclos, e gostei da sua ideia de que vai haver uma pressão selectiva para a reforma das universidades.
Mas, infelizmente, o Prof. Arsélio parece-me preso numa confusão que é transversal à generalidade dos comentários sobre o ensino superior que tenho lido nos últimos tempos: a dos lugares da investigação e da docência. O Prof. Arsélio mistura no seu artigo docentes e investigadores como se fossem a mesma coisa, e apresenta os grupos de investigação nas universidades como a fonte da revolução necessária nos métodos de ensino:
"Os núcleos de investigação da universidade são actualmente os mais versáteis e qualificados para monitorizar novos modelos de ensino que podem ir desde os primeiros anos da licenciatura até à pós-graduação. Estes núcleos têm já em seu poder as  novas tecnologias que têm transformado o processo de aprendizagem dos alunos desde os primeiros anos escolares, e os investigadores destes núcleos estão bem preparados para lançar nas faculdades centros de novas aprendizagens para os alunos de licenciatura, como o têm feito para a pós-graduação."
Atrevo-me a discordar! Não me parece que os investigadores, sobretudo aqueles que fazem parte de núcleos de excelência que o Prof. Arsélio menciona, estejam particularmente qualificados para as novas realidades do ensino. Relembro apenas o ênfase na empregabilidade preconizado por Bolonha, e a necessidade de desenvolver competências profissionais e sociais que extravasam o âmbito necessariamente estreito de uma área de investigação de ponta.
A nova formação universitária, para ter alguma relevância numa revolução cultural que este país tanto precisa, tem que ser abrangente, multidisciplinar, integrada na sociedade e dirigida por uma visão do futuro que tenha em conta valores humanos e de sustentabilidade ecológica. Uma parte dos alunos terá vocação e enquadramento em actividades de investigação. Para esses, os centros de investigação serão excelentes instrumentos de formação. E os outros?
O Prof. Arsélio reconhece que "As actividades universitárias com qualidade reconhecida internacionalmente realizam-se sobretudo nos núcleos de investigação". É pena que não se possa dizer o mesmo da docência, e pretender que as duas coisas são equivalentes é perpetuar um engano que tem custado caro a gerações de portugueses e que é um dos principais entraves a um ensino superior eficiente e justo.

 

15. Fevereiro Irmã Lúcia

Hoje estão bandeiras a meia haste por todo o lado. Morreu a Irmã Lúcia, a última das videntes de Fátima. Esperem lá: estão a falar do fenómeno histérico de 1917, resultante da ignorância profunda de uma população subjugada pelo peso da igreja católica? A mesma igreja que, se não planeou o fenómeno, foi muito rápida a aproveitá-lo e a torná-lo numa imensa fonte de rendimento? Estão a falar de uma senhora que passou mais de 80 anos fechada num convento, isolada do mundo e embrutecendo-se com a repetição constante das mesmas rezas?
E a Universidade dos Açores, com as suas responsabilidades de centro de saber e de enaltecimento das capacidades intelectuais humanas,  põe a bandeira a meia haste? Tudo bem, são opções. Mas não venham depois lamentar-se com o descrédito da sociedade relativamente à universidade!

 

13. Fevereiro Ward Churchill

É interessante ler o que um índio americano, professor de Estudos Étnicos na Universidade do Colorado, tem a dizer sobre o atentado de 11/9. Quantas vezes nos lembramos que os índios americanos se sentem invadidos e roubados da sua soberania? Os meus poucos conhecimentos de história da América do Norte incluem a ideia de que os índios venderam territórios aos brancos. Sendo assim, houve uma época em que as nações índias eram reconhecidas. Como é que de repente desapareceram? A história, contada por Ward, é triste. Mas serve para colocar os EUA no contexto palestiniano, bósnio, ruandês, basco e (porque não?) nazi. E servir de contraponto à respectiva retórica de paladinos da democracia e dos direitos humanos...

 

Modelos

O lado mau de estar tão imerso nas questões da pedagogia do ensino superior e das implicações do processo de Bolonha é sentir-se completamente afogado de informação, insatisfeito com as actuais práticas pedagógicas mas incapaz de estruturar uma alternativa aceitável para as aulas que começam já amanhã! E ainda tenho que acabar o resumo da comunicação ao II Congresso Nacional da Ordem dos Biólogos... A Edith Cowan University pareceu-me, numa passagem breve, ser um modelo do que eu acho que deve ser uma universidade. Um exemplo? Tem uma unidade de Resource Development que apoia os professores na preparação e manutenção do material para as disciplinas. Vejam só: "Normally staff will be supported by an instructional designer, materials developer and desktop publisher." Quem trabalha num sítio assim não deve passar por estas angústias...

 

11. Fevereiro LEONARDO

Submeti ontem a candidatura da UA ao programa Leonardo da Vinci. Este é um programa europeu vocacionado para a formação profissional a vários níveis e ao longo da vida. Nesta fase de arranque vamos apostar nos recém-licenciados nas áreas das ciências naturais, porque para os restantes existe já o projecto desenvolvido pela DRJEFP: a ideia é apostar na complementaridade, não na concorrência. Os 4 felizes contemplados irão fazer um estágio de 4 meses na região de Freiburg, Alemanha, e sairão de todo este processo (espera-se) com maiores perspectivas de emprego mas sobretudo (sabe-se) com uma visão mais positiva de si próprios.

 

8. Fevereiro Ernst Mayr (1904-2005)

Não acredito que haja algum biólogo que não conheça este nome. Quando comecei a estudar Biologia o assunto que mais me interessava era a evolução. Li imenso sobre o assunto incluindo, claro, livros e artigos de Mayr. Lembro-me das nossas batalhas com o conceito de espécie. O conceito biológico de espécie, para o qual Mayr deu um contributo essencial, era o conceito central, do qual os outros constituíam modificações adaptadas a casos especiais. Mais tarde havia de me debater com este conceito, quando tive que o aplicar no contexto de diferenças morfológicas evidentes entre duas "populações" alopátricas. E voltei aos livros de Mayr para apoio (os "Principles of Systematic Zoology" ainda estão em local proeminente da minha estante).
Mayr publicou sobre evolução, o que naturalmente o levou a pensar (e a escrever) sobre a filosofia da ciência e da biologia. Quando se começa a reflectir sobre o que somos e de onde é que viemos (nós e os organismos que nos rodeiam e que connosco fazem parte do milagre da vida), as questões do que se sabe e de como é que se sabe tornam-se essenciais.
Uma breve volta na net permite-me sugerir os textos sobre Mayr na Wikipedia, na PBS e na Edge (onde se pode ver um vídeo).

 

3. Fevereiro Asas

 

Nós nascemos para ter asas, meus amigos.

Não se esqueçam de escrever por dentro do peito: nós nascemos para ter asas.

No entanto, em épocas remotas, vieram com dedos pesados de ferrugem para gastar as nossas asas como se gastam tostões.

Cortaram-nos as asas para que fôssemos apenas operários obedientes, estudantes atenciosos, leitores ingénuos de notícias sensacionais, gente pouca, pouca e seca.

Apesar disso, sábios, estudiosos do arco-íris e de coisas transparentes, afirmam que as asas dos homens crescem mesmo depois de cortadas, e, novamente cortadas, de novo voltam a ser.

Aceitemos esta hipótese, apesar de não termos dela qualquer confirmação prática.

Por hoje é tudo. Abram as janelas. Podem sair.

 

José Fanha, 1985. Cartas de Marear.

 

2. Fevereiro ECDU

Afinal não só há mais gente a ver a necessidade de revisão do ECDU ;-) mas até já se fizeram propostas sobre o assunto. Cronologicamente, encontrei uma proposta do SNESup de 2001, e a excelente proposta de João Vasconcelos Costa e Luís Moniz Pereira de 2002. Parece que o próprio Ministério já pensou em mexer no assunto (2003).
Para que o ensino superior desemburre, é óbvia também a necessidade de uma reestruturação da própria organização das universidades. O MCES também já pensou nisso, através de uma proposta de Lei da Autonomia do Ensino Superior.

 

1.Fevereiro Bolonha

O Ministério está a fazer um trabalho notável de catalização das mudanças necessárias no Ensino Superior. Saliento as iniciativas relacionadas com o Processo de Bolonha e, mais recentemente, a "Orientação estratégica para a reorganização da rede de instituições de ensino superior em Portugal" Parabéns, senhora ministra! Falta só uma coisa: a reformulação do Estatuto da Carreira Docente Universitária. As três coisas têm que avançar em paralelo, ou não avançará nenhuma.

 

27. Janeiro Na idade dos porquês


Professor diz-me    porquê?
Por que voa o papagaio
que solto no ar
que vejo voar
tão alto no vento
que o meu pensamento
não pode alcançar?

Professor diz-me    porquê?
Por que roda o meu pião?
Ele não tem nenhuma roda
E roda    gira    rodopia
e cai morto no chão...

Tenho nove anos    professor
e há tanto  mistério à minha roda
que eu queria desvendar!
Por que é que o céu é azul?
Por que é que marulha o mar?
Porquê?
Tanto porquê que eu queria saber!
E tu que não me queres responder!

Tu falas falas    professor
daquilo que te interessa
e que a mim não interessa.
Tu obrigas-me a ouvir
quando eu quero falar.
Obrigas-me a dizer
quando eu quero escutar.
Se eu vou a descobrir
Fazes-me decorar.

É a luta    professor
a luta em vez de amor.

Eu sou uma criança.
Tu és mais alto
mais forte
mais poderoso.
E a minha lança
quebra-se de encontro à tua muralha.

Mas
enquanto a tua voz zangada ralha
tu sabes    professor
eu fecho-me por dentro
faço uma cara resignada
e finjo
finjo que não penso em nada.

Mas penso.
Penso em como era engraçada
aquela rã
que esta manhã ouvi coaxar.
Que graça que tinha
aquela andorinha
que ontem à tarde vi passar!...

E quando tu depois vens definir
o que são conjunções
e preposições...
quando me fazes repetir
que os corações
têm duas aurículas e dois ventrículos
e tantas
tanta mais definições...
o meu coração
o meu coração que não sei como é feito
nem quero saber
cresce
cresce dentro do peito
a querer saltar cá para fora
professor
a ver se tu assim compreenderias
e me farias
mais belos os dias.
Alice Gomes (1946)

 

 

24. Janeiro Limites para o relativismo cultural

 

23. Janeiro Bodião azul
Demorou cinco anos, mas finalmente enviei fotos do Centrolabrus caeruleus para o FishBase! Para os mais distraídos, esta é uma espécie endémica dos Açores, descrita aqui pelo yours truly. Também fiz uma descrição da respectiva biologia. Bons tempos!

Macho:   Fêmea:

 

20. Janeiro Adivinha
Qual é o sistema que permite que uma pessoa possa ser um formador de alto nível sem ter a mínima preparação pedagógica? E que, ao mesmo tempo, obriga essa pessoa a concorrer a projectos de investigação, pondo-lhe na mão verbas avultadas e responsabilidades sobre pessoas (técnicos, bolseiros), sem exigir (nem recomendar!) nenhuma formação em gestão de projectos?
Uma pista: é o mesmo sistema que se pretende perpetuar apregoando a necessidade de formação ao longo da vida...

 

11. Janeiro Estes tradutores online estão a ficar bons. Usei o @promt da SmartLink e, apesar das brasileiradas e das correcções que tive que fazer, poupei bastante trabalho. Uma amostra:


Nothing in Biology Makes Sense Except in the Light of Evolution


Nada em Biologia Tem Sentido Exceto na Luz de Evolução
Theodosius Dobzhansky (1900-1975)

 

9. Janeiro A propósito de uma discussão sobre se a sida é ou não causada pelo VIH, e porque não me apetecia (nem conseguia, em pouco tempo) entrar nos detalhes técnicos da polémica (mas v. aqui uma introdução, e aqui os pormenores), lembrei-me de um interessante artigo de Chris Horner no nº 8 da revista Think sobre uma corrente filosófica designada por “Pragmatismo”.
Se percebi bem, o argumento central é que não é possível conhecer a Realidade tal como ela existe, independentemente dos condicionamentos humanos. De facto, isso implicaria que houvesse uma maneira independente, não humana, de confirmar aquilo que nós pensamos que é a Verdade. E não há, como é óbvio.
Os pragmáticos (pragmatistas?) defendem que o valor das ideias se mede, não pela perfeição com que reflectem a Realidade, mas pela sua utilidade prática. “Ideas are tools, not mirrors”, diz Horner. Faz sentido, apesar de se ficar com um pé atrás ao saber que esta é uma (a única) contribuição norte-americana para a filosofia…
Mas, nesta perspectiva, é forçoso reconhecer que o paradigma VIH-sida fica muito mal classificado. Não tenho tempo para isso, mas valia a pena ir buscar os números já investidos no estudo deste minúsculo pedaço de ARN, pô-los em perspectiva com o investimento noutras áreas da investigação médica (a malária, por exemplo), e contrastá-los com os resultados alcançados: nem uma única pessoa "curada", nem uma única vacina viável.
Não é caso para pensar? Não se justificaria procurar explicações alternativas? Não fosse dar-se o caso, por minúscula que fosse a probabilidade, por muito que isso custasse ao NIH, ao Gallo, e aos milhares de cientistas que vivem à custa deste paradigma, de haver mesmo outra explicação? O sofrimento mental e físico causado a tantas centenas de milhares de pessoas não exigiria essa abertura de espírito?
Ah, mas neste caso há uma confirmação independente. Uma novidade no domínio da Ciência (pelo menos desde o julgamento de Galileu, em 1633): uma Declaração de sábios, pois. Assinado por mais de 5.000 pessoas (!), “including Nobel prizewinners”. E, pronto, conhecemos a Verdade e está o assunto resolvido.

Não deixa de ser irónico invocar uma corrente filosófica norte-americana para desafiar aquela que é das maiores pragas lançada mundialmente pelos EUA (depois do “free-trade” e de Hollywood)…

 

9. Janeiro Fui chamado a opinar sobre o seguinte texto de A. Comte-Sponville:

"A justiça só existe na medida em que os homens a desejam de comum acordo e a fazem. Não existe, pois, justiça no estado de natureza, não existe justiça natural. Toda a justiça é humana, toda a justiça é histórica: não existe justiça (no sentido jurídico do termo) sem leis, nem (no sentido moral) sem cultura - não existe justiça sem sociedade."

E disse mais ou menos o seguinte:

Parece-me que se estão a discutir ao mesmo tempo dois assuntos diferentes: o primeiro é uma coisa que para mim é óbvia- que não existe justiça "natural". O outro é a questão de saber se os animais têm ou não sentido de justiça. (Até porque o Comte-Sponville diz que não) Estas duas ideias são distintas mas estão ligadas. A ver se ajudo a destrinçar.

As leis da biologia (se as há...) são epifenómenos das leis da física e da química. Percebe-se, penso? A vida tem bases químicas e físicas. É, na sua essência, uma propriedade emergente, em meio líquido, de sistemas complexos baseados em carbono. Assim como não há justiça no movimento planetário, ou no nascimento e morte de estrelas, também não há justiça no mundo biológico. Pacífico, parece-me: a justiça é um conceito (ou um sentimento?), não uma propriedade da matéria.

Para se poder compreender o que seja justiça é preciso haver um mínimo de inteligência, como quer que ela seja definida. E de memória. E de sentido do passado e do futuro. E é isto que nos leva à questão seguinte: a justiça é uma invenção humana?

E aí, caro André (o francês), atrevo-me a discordar: os cães têm sentido de justiça. E de responsabilidade. Assim como os macacos têm inveja, e sentimento de posse. E uns são maus e outros bons. Não há nenhuma diferença fundamental (a nível intelectual ou qualquer outro) entre as pessoas e os animais. As diferenças são de grau, não de género.

Que a inteligência humana seja uma continuação da inteligência animal e não algo radicalmente diferente já é mais difícil de aceitar para alguns. Mas é fácil para mim, na sequência do que sei sobre a evolução, e de leituras de Daniel Dennett (Kinds of Minds) e Peter Singer (Practical Ethics). Dizia o Dobzhansky que nada na Biologia faz sentido sem o conceito de evolução. E eu acrescentaria, neste contexto, que muitas características humanas podem ser muito melhor entendidas se pensarmos que não aterrámos neste planeta de pára-quedas.

Portanto se sairmos do nosso pedestal e começarmos a descer a escala evolutiva vamos encontrar sentimentos, emoções, conceitos. Pensemos nos chimpanzés, dos quais nos separámos há 4-5 milhões de anos (ontem, em termos geológicos). Que diabo, eles comunicam connosco! É à medida que descemos a escala, então, que as funções mais elevadas intelectualmente se vão apagando, apagando, até chegarmos ao nível mais básico do estímulo-resposta, onde tudo começou.

 

6. Janeiro Preparando as aulas para o próximo semestre, e batalhando entre Problem-Based Learning e Metodologia de Projecto descobri as chamadas WebQuests. São actividades preparadas para ser executadas com base em informação retirada da internet. Interessante. No lado da avaliação, estou a olhar para coisas como as Scoring Rubrics: vantajosas para os professores E para os alunos.
Chego à conclusão que existem uma série de abordagens, mais ou menos formalizadas, que giram à volta da questão de envolver os alunos na construção da sua própria aprendizagem. As páginas de Peter Ommudsen sobre Critical Thinking in Biology são um bom resumo destas abordagens- com casos práticos, ainda por cima!

 

1.Janeiro Uma amiga minha chamou-me à atenção o Decálogo Liberal, de Bertrand Russel.  São, segundo as palavras do próprio, os Dez Mandamentos do professor, e nada melhor do que começar o ano reflectindo neles.

 

Decálogo Liberal

Os Dez Mandamentos que promulgaria, como professor, são os seguintes:

1. Não te sentirás absolutamente certo de coisa alguma.

2. Não pensarás ser vantajoso progredir ocultando as provas, pois elas virão, inapelavelmente, à luz.

 3. Não tentarás desencorajar o raciocínio, pois seguramente conseguirás.

4. Quando encontrares oposição, mesmo que seja a de marido ou filhos, esforçar-te-ás por superá-la pela força dos argumentos e não pela da autoridade, pois uma vitória que depende da autoridade é irreal e ilusória.

5. Não respeitarás a autoridade de outros, pois encontrarás sempre outras que a contradigam.

6. Não usarás da força para suprimir opiniões que julgas perniciosas, pois se o fizeres as opiniões suprimir-te-ão.

7. Não temerás ser excêntrico nas tuas opiniões, pois todas as opiniões hoje aceites já foram excêntricas outrora.

8. Encontrarás mais prazer na divergência inteligente do que na concordância passiva visto que, se aprecias devidamente a inteligência, a primeira implica uma concordância mais profunda do que a segunda.

9. Serás escrupulosamente verdadeiro, mesmo que a verdade seja inconveniente,  pois mais inconveniente será quando tentares ocultá-la.

10. Não sentirás inveja da felicidade dos que vivem num paraíso de insensatos, pois somente um insensato pensará que isso é felicidade.

"A Liberal Decalogue", The Autobiography of Bertrand Russell, Vol. 3: 1944-1969, pp. 71-2. (v. texto original aqui, nas páginas da Bertrand Russell Society)